Quando o Pecado Entristece

Me identifico muito com o exemplo que um antigo puritano deu sobre a nossa natureza: “Experimente tirar um porco da lama, dar um banho, deixá-lo cheiroso, colocar nele um laço e deixá-lo andando pela casa. Perceba que na primeira oportunidade esse mesmo porquinho vai sair porta afora e se jogar na lama outra vez.” Como porcos não tem consciência, não se entristecerão por terem voltado pra lama, mas o nosso caso está mais para “filho pródigo” e pela graça de Deus percebemos a sujeira em que nos metemos e queremos voltar arrependidos para o nosso lar; tomar um banho, ficar cheirosos e colocar uma roupa bonita. Como o filho pródigo pensamos: “Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus empregados.” (Lucas 15:18-19)

A tristeza do pecado amarga a nossa alma, e o verdadeiro arrependimento precisa passar por essa tristeza. O que é totalmente contracultural atualmente! O mundo auto-ajuda não suporta as palavras “arrependimento” e “tristeza”. A impressão que dá é que como a música de Chico Buarque fala “agora eu era o rei, era o bedéu e era também juíz, e pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz”, as pessoas são obrigadas a serem felizes o tempo todo. Não estou fazendo apologia à tristeza, concordo que se existe alguém que precisa ser feliz nesse mundo somos nós, que conhecemos a Cristo e que fomos salvos pela sua maravilhosa graça; mas isso não excluí o fato de que ainda vivemos nesse mundo caído, com essa natureza corrompida pelo pecado e ainda somos atraídos para a lama. E cair outra vez na lama não deve ser trivial, deve ser motivo de tristeza.

Paulo afirma: “Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, o qual não traz pesar; mas a tristeza do mundo opera a morte.” (2 Coríntios 7:10). Então, tenham em mente essa tristeza quando eu falar sobre tristeza. Tenham em mente a tristeza que opera arrependimento que é “uma graça do Espírito Santo por meio da qual um pecador é humilhado em seu íntimo e transformado em seu exterior”.

Essa tristeza pelo pecado não é superficial e muitas vezes é chamada de quebrantamento do coração: “Pois tu não te comprazes em sacrifícios; se eu te oferecesse holocaustos, tu não te deleitarias. O sacrifício aceitável a Deus é o espírito quebrantado; ao coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus.” (Salmos 51:16-17). Isso porque a verdadeira tristeza espiritual é interior, é lá dentro do nosso coração, não é caracterizada por choros e rostos tristes, e fica só nisso, a verdadeira tristeza é profunda como uma ferida interna. E do mesmo modo que o coração tem papel fundamental no pecado, ele também tem papel fundamental no ato de entristecer-se.

Além disso, essa tristeza não é pela punição, mas pela ofensa cometida. Primeiro porque em qualquer medida todo pecado é pecado contra Deus, não sendo importante o tamanho/tipo do pecado, mas o tamanho da pessoa contra qual o pecado foi cometido. Nós vivemos diante de um Deus santo, maravilhoso, e qualquer que seja o pecado ele é sério porque a pessoa contra quem o cometemos é séria. Infringimos a lei de Deus, abusamos do seu amor, isso deveria levar nossas almas às lágrimas. E segundo, essa tristeza não deve ser a mesma de um ladrão que foi apanhado no roubo e agora se entristece por ter de sofrer a pena, mas deve ser como a de um filho que magoou profundamente o coração do seu pai, tenha esse pai descoberto ou não o seu erro.

Essa tristeza, porém, não opera a morte como a tristeza do mundo porque essa tristeza vem com fé, pois assim como nosso pecado deve estar sempre diante de Deus, as promessas de Deus também precisam estar sempre diante de nós. “Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor: ainda que os vossos pecados são como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que são vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como a lã.” (Isaías 1:18); “Purifica-me com hissopo, e ficarei limpo; lava-me, e ficarei mais alvo do que a neve.” (Salmos 51:7); “Se dissermos que não temos pecado nenhum, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” (I João 1:8-10).

A tristeza espiritual muitas vezes vem acompanhada de restituição, ou seja, aquele que pecou com injustiça para com outra pessoa, deve realizar a compensação. No caso de fraudes, ou roubo, ou coisa assim é possível restituir. No caso de uma ofensa pessoal é necessário que haja um pedido de perdão e às vezes até uma retratação com os envolvidos. Porque é claro que é muito fácil dizermos que já pedimos perdão para Deus e evitarmos a humilhação de dizer que erramos, que falamos sem pensar, que fizemos para magoar. Admitir que somos pecadores e esmagar o nosso ego é parte importante e resultado de um verdadeiro arrependimento.

E devemos saber que enquanto Cristo não vem pela segunda vez a esse mundo ou nós não morremos, estaremos continuamente enfrentando esses momentos de tristeza em nossas vidas. Temos uma doença crônica chamada pecado, e essa doença só é possível de ser tratada com arrependimento. Essa é a tristeza segundo Deus.

Com amor,

Bruna

 

* http://www.monergismo.com/thomas-watson/seis-componentes-do-arrependimento/

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