Morar no exterior, muda o seu interior!

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou tv. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é, que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver” Amyr Klink, Mar sem Fim

Lar é onde o coração está.

Depois de quase 3 anos e meio nós vamos embora. Vamos voltar para o lugar onde todos dizem que é a nossa casa. Porém, o mais engraçado é que depois de conversar com várias pessoas que já moraram no exterior por algum tempo, todos dizem que assim como eu, não é bem assim que a gente se sente. Depois de viver em outro país e abraçá-lo como se fosse meu, depois de congregar em uma igreja como se fosse minha, depois de falar uma língua como se fosse minha, depois de aprender a apreciar sabores como se fossem os meus, de repente eles se tornaram meus, de fato. E, de repente, o meu lar se tornou o lugar onde o meu coração está, onde a minha família está, e onde eu estou no momento presente.

Caso contrário, eu sofreria cada hora, cada minuto, e morreria de uma saudade que dilacera. Caso contrário eu não teria nem ido à igreja, nem aprendido outro idioma, nem apreciaria nenhum outro sabor, esperando pelo dia em que voltaria para “casa”.

O tempo em se mora no exterior, não é um tempo em que nada acontece. Não é uma pausa na vida. O tempo que se mora no exterior é tempo de vida. No meu caso, foi nesse outro lugar, nesse outro país, que eu comecei o meu casamento, que eu tive minha primeira filha, que eu lancei os fundamentos da minha família, que eu engravidei pela segunda vez. Foi aqui, longe da minha “casa”, que eu tive a minha primeira casa onde eu era a dona, onde eu era a mãe. Foi aqui que o meu marido se tornou doutor e pai.

Mas não é sobre isso que eu quero falar, o que eu quero falar é que morar no exterior muda o nosso interior de maneira radical. Creio que depois de uma experiência como essa o ser humano não permanece com a mesma visão de mundo que tinha antes. Como disse Amyr Klink, ele não permanece na “arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos”. De repente você é obrigado a ver, sentir e ter que lidar com situações que você jamais imaginou presenciar. De repente a sua forma de comer, de vestir, de se comportar e até mesmo de ver TV são questionadas. Tudo aquilo que você sempre teve por certo e claro, torna-se passível de dúvida. E aí o “é assim, porque sempre foi assim” cai na caixa do “não faz o menor sentido”.

Morar no exterior nos aproxima de quem somos de verdade. Nos faz separar aquilo que fazemos por hábito, daquilo que realmente achamos importante fazer. Nos faz repensar os nossos valores e analisar muitas coisas. Eu expliquei outro dia para o meu marido, que a minha sensação era a de “sair do meu corpo e me olhar de fora”. Morar em outro país pode nos trazer esse tipo de reflexão, talvez você goste de queijos, só o que lhe faltava era a oportunidade de saboreá-los em um modo diferente. Talvez você não goste do jeito neurótico como as mulheres do seu país se preocupam com estar bem arrumadas, e você só fizesse isso por conveniência ou hábito. Mas aí então, quando você se depara com outros tipos de queijo e outras formas de “estar arrumada”, você atribui um novo significado a essas coisas.

Talvez você nem soubesse o quanto era espiritualmente acomodado até que ficou sozinho e viu que você, por si mesmo, não buscava intimidade com o Senhor, quem “fazia isso por você” (como se isso existisse) era o seu pastor, os seus pais, os seus amigos íntimos… Só ali, na solidão de um outro país, de uma outra cultura, de uma outra língua é que você pode perceber certas coisas em você. Talvez você descubra que é mais forte do que pensava, que é mais capaz do que se julgava ser. Mas talvez você se dê conta de que tem muito a aprender e lamente todos os anos que jogou fora fazendo coisas vazias.

Morar no exterior muda a nossa linguagem, e por linguagem eu quero incluir pensamento, morar fora muda o nosso pensamento, ou a nossa forma de pensar o mundo, resignifica coisas, e juntamente com isso muda a nossa linguagem. Para além das palavras trocadas, das expressões “intraduzíveis”, da falta de vocabulário na língua materna. Morar no exterior muda a forma de organizarmos nossas ideias, muitas vezes porque até as nossas ideias acabaram mudando. De repente nos damos conta de que é verdade que somos discurso, de que é verdade que somos aquilo que podemos dizer que somos e como isso nos frusta quando não conseguimos dizer no outro idioma. Como nos frusta nos ouvir falando algo que não somos, por não conseguirmos de fato expressar quem somos. Ao mesmo tempo, como nos alegramos por alargar a nossa forma de expressão usando a forma de se expressar desse outro país. Como ficamos satisfeitos de soltar aquela expressão “intraduzível” para a língua materna, mas que é capaz de descrever com perfeição o nosso sentimento.

Morar no exterior muda o nosso paladar, muda a nossa comida favorita, ou nos faz amar ainda mais o feijão e arroz da nossa mãe! Expandimos então o nosso paladar e aprendemos a experimentar, a dar um voto de confiança para aquilo que um país inteiro diz que é gostoso. Às vezes a decepção é grande, mas geralmente a satisfação é enorme. Uma explosão de novos sabores invadem a nossa boca, nos sentimos diferentes, vemos a comida de outra forma, e aprendemos que comer é algo muito cultural. Que isso ou aquilo, pode ou é proibido por razões, geralmente, arbitrárias e que não fazem o menor sentido quando questionadas. Então, podemos abraçar facilmente as duas gastronomias e quem sabe até, como um bom brasileiro, fazer uma mistura de tudo! 🙂

Morar no exterior muda tanta coisa e de formas tão variadas que eu poderia escrever 10 posts e ainda assim teria assunto pra falar! Que tal você contar um pouco de como foi a sua experiência no exterior ou de como você imagina que será?!

Com amor,

Bruna

 

 

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